sexta-feira, dezembro 08, 2006

About Jack Kerouac

Fluxo de consciência - eis um termo que pode, pelo menos em parte, explicar o que faz da obra de Kerouac tão fascinante. Outros escritores como Clarice Lispector fazem uso dessa "técnica", mas nenhum soube utilizá-la com tanta energia e criatividade como esse americano intranqüilo.
Em 1922, nascia em Massachusetts o porta-voz da nova juventude que surgia no século XX. Durante os anos 40, ele, antes um jogador de futebol americano na faculdade, resolveu dar um novo sentido à sua existência: viajar pelos EUA, tendo compromisso apenas com uma coisa - a liberdade.
Após quase uma década inteira explorando cada canto do underground de seu país, ele resolveu começar a escrever livros para relatar todas as experiências de vida que teve durante o período. As jazz sessions, as garotas, as bebedeiras, uma temporada no México, os bicos e trabalhos temporários, as experiências com drogas, o sexo desregrado, os sauraus... Um dos primeiros deles foi "On The Road", escrito em apenas 19 dias, no ano de 1951. Jack usou doses cavalares de benzedrina para compor de maneira ininterrupta a obra.
Porém, publicá-la não seria tão fácil. Vários editores, mesmo com as revisões que o autor fez através dos anos, incompreenderam o valor de On The Road e recusaram-se em publicá-la, até que, em 57, a Viking Press resolveu lançá-lo, mas editou e limou mais de 100 páginas do escrito original. Isso, no entanto, não diminuiu o valor do livro, que foi um fenômeno comercial quando foi lançado. Os críticos ficaram divididos - os que não gostaram tacharam o livro de 'subliteratura'; os que apreciaram criaram verdadeiros chavões sobre On The Road, como 'bíblia da geração beat'.
E o que viria a ser essa geração beat? É uma maneira de denominar os artistas e intelectuais que iniciaram uma verdadeira ruptura cultural na metade do século XX, com livros que influenciaram todos os jovens dali em diante a não temerem em ser libertários e adotar um estilo de vida alternativo. Allen Ginsberg ("Uivo"), William Burroughs ("O Almoço Nu") e Charles Bukowski ("Misto-Quente", "Notas de um Velho Safado") são exemplos de escritores beatniks que, assim como Kerouac, marcaram os novos tempos da cultura ocidental.
On The Road não foi a única grande obra do escritor, mas foi a única que fez sucesso na época de seu lançamento. Os demais livros foram menosprezados, mas, em retrospectiva, vários críticos literários consideram-os no mesmo patamar da 'obra-prima' de Jack. Bons exemplos disso são "Visions of Cody", "Os Subterrâneos" (talvez os dois livros que expressem melhor a prosa espontânea adotada por ele), "Tristessa" (uma melancólica história, baseada em fatos reais, sobre uma prostituta descendente de indígenas que Jack conheceu na Cidade do México) e "Os Vagabundos Iluminados" (recheado de referências ao budismo, é de fato o mais zen dos livros de Kerouac).

Confira a seguir a influência dos beatniks nos principais movimentos culturais do século XX:
- ROCK AND ROLL: herdeiro do blues e do jazz, a sua batida acelerada e vibrante é uma demonstração perfeita do estilo de vida dos envolvidos com o rock. Porra-louquice é pouco. Além disso, há dois bons exemplos de como o dito 'rock clássico' tem raízes kerouacianas - Bob Dylan, após ler "On The Road", fugiu de casa, e Jim Morrison resolveu fundar o The Doors.
- HIPPIES: a exaltação da liberdade absoluta serviu de pano pra manga para o movimento hippie. A vida pouco (ou nada) materialista e bastante coletivista também teve suas origens no final dos anos 40, mas só foi disseminada entre a juventude na década de 1960, e rompeu com boa parte da moral da época. Não só o amor livre, mas também o sexo livre e o uso irresponsável de drogas, também têm nos hippies uma forte expressão.
- PUNK: na metade dos anos 70, a juventude, movida pelo tédio e o desejo de arrebentar com a estrutura vigente, desencadearia no punk, que foi uma reviravolta não apenas no rock n' roll, mas na cultura como um todo. "Do it yourself", essas eram as palavras de ordem. E os beatniks esteve bem presentes aqui, como uma influência literária para um movimento tão niilista quanto o punk. Isso foi mais visível na vertente americana do movimento, menos politizada e mais despojada que a britânica.
- PÓS-PUNK: desiludida, a geração dos anos 80 foi caracterizada pela melancolia e a desesperança em relação ao futuro. A ala intelectualizada do punk, então, operou uma mudança de direção na música e na literatura, expondo o "lado sombrio" dos envolvidos com o underground. A sonoridade densa das bandas de rock dessa época (que, inclusive, influenciariam mais tarde a música eletrônica moderna) expunha uma espécie de filosofia de vida dessa década - "Dançar é a cura para a tristeza".

O próprio fim da vida de Kerouac, aliás, é análoga ao pós-punk. A guinada ideológica para a direita, o desencanto com a juventude, o pessimismo no desfecho de suas obras, as drogas como válvula de escape, uma busca maior pelo espiritual, a alienação voluntária à televisão... ele morreu em 1969, vítima da cirrose hepática.

Kerouac continua importante para a cultura mundial quatro década após a sua morte? Certamente, pois ele foi um dos mais brilhantes e importantes escritores da literatura dos EUA no século passado. É possível afirmar que os mochileiros têm nele uma espécie de inspiração, principalmente os que viajaram pelos Estados Unidos e México.
No Brasil, felizmente, a L&PM Pocket, editora especializada em livros de bolso, já traduziu e publicou, nos últimos anos seis livros do autor, com preços acessíveis aos possíveis interessados:
- On The Road: Pé Na Estrada (R$ 19,50)
- O Livro dos Sonhos (R$ 17,50)
- Os Vagabundos Iluminados (R$ 17,00)
- Viajante Solitário (R$ 16,00)
- Os Subterrâneos (R$ 12,00)
- Tristessa (R$ 6,00)

sexta-feira, outubro 06, 2006

Anfi. S. Ismo.

"Eu não criei uma filosofia para achar respostas, mas sim para ter ainda mais perguntas e dúvidas".

"Os nostálgicos vivem o ontem. Os hedonistas vivem o hoje. Os sonhadores vivem o amanhã. Eu? Vivo o depois de amanhã."

"O espelho é o reflexo da sociedade. Veja os narcisistas, por exemplo."

"Querer basear uma filosofia só no raciocínio ou só nos sentidos não é sensato, até mesmo porque a filosofia visa a expandir o conhecimento, e não limitá-lo."

"Para quê entrar em uma tribo, se aliar a um grupo, participar de uma panelinha, se você pode criar uma? Não seja seguidor, seja seguido."

sábado, setembro 23, 2006

Dois são um

A sexta tese anfisista poderá soar extremamente pessoal e intimista, mas servirá mais como uma sugestão do que cada um pode fazer - auto-análise. Não no sentido psicanalítico, mas sim em aproveitar seus devaneios e pensamentos para filosofar sobre sua existência, e ir até a raiz de tudo - quem sabe até mesmo apontar que em você exista mais de uma personalidade. Eis o meu caso.

Vejo-me como uma pessoa que nunca muda - sempre fui, sou e serei o mesmo, porém, meu comportamento pode variar dependendo de qual das minhas duas faces predominar. Sim, constatei ontem que existem dois Kaio:
1. O Kaio frio: cético, pessimista, arrogante, pretensioso, que se recusa a amar alguém. Profundamente egoísta e sisudo, e até amargo quanto à sua existência - ele não vê nada de grandioso para o seu futuro.
2. O Kaio quente: romântico, sonhador, idealista, simpático... Além do mais, ele deseja, um dia, encontrar a garota dos seus sonhos, e amá-la intensamente. Ele se sente bem em compartilhar conhecimento com os outros. Ele vive devaneiando, criando um mundo mágico - bandas de Rock imaginárias, sitcoms imaginárias, times de futebol imaginários... isso sem falar nos ideais relacionados a amor, amizade, intelecto e até sucesso profissional.
Notem que a própria maneira como eu abordei cada um deles reflete como eles são. O Kaio frio é adjetivado, conciso e direto - apenas 2 linhas foram suficientes para descrevê-lo. Já o quente é mais detalhado (até prolixo em certos momentos).
O primeiro tem consciência de sua situação - a reclusão, os fracassos amorosos, os tormentos por causa de qualquer coisa e o ceticismo quando a qualquer possibilidade de prazer e felicidade.
O segundo é (bem) mais otimista. Se tranqüiliza com o fato de ser inexperiente no amor. Vê a loucura e a exaltação dos sentidos de maneira positiva. Não liga para o que os outros pensam dele, e se diverte ao conversar por horas a fio com alguém. E, acima de tudo, tem certeza de que ainda terá a liberdade pela qual tanto anseia.
Ainda assim, esses dois não se opõem. Não há dualismo.
Pelo contrário - um completa o outro. Nunca eu serei 100% frio ou quente. Sempre haverá um pouquinho de cada um. Note que ambos são idealistas e realistas ao mesmo tempo. Um, porque é frio e dedutivo quanto à sua realidade, porém foi através das experiências que ele passou a ver o mundo como ele é. O outro se baseia muito em seus ideais, mas utiliza bastante seus sentidos.
Ambos, com suas respectivas idéias e opiniões, são uma bela demonstração de que, sim, é possível a união entre o ideal e o real, entre o romântico e o cínico, entre, enfim, o sentimental e o racional.
É possível achar uma conclusão para tudo isso? Não. Até porque, caso houvesse uma resposta para essa e todas as outras perguntas, eu não continuaria nessa interminável busca por uma verdade, mesmo sabendo que, provavelmente, jamais a encontrarei.

terça-feira, setembro 19, 2006

"Seventeen seconds, a measure of life"

Lançado em maio de 1980, esse disco foi uma completa ruptura com o tipo de som que a banda fazia. Os singles Killing An Arab, Boys Don't Cry e Jumping Someone Else's Train, além de outras canções do período 1978-1979, como 10:15 Saturday Night e Plastic Passion, poderiam ser rotulados como um punk mais acessível, com músicas de melodias irresistíveis e letras que se alternavam entre o existencialismo e a ingenuidade amorosa.
Seventeen Seconds foi quem rompeu com tudo isso. Mais cuidadosamente produzido (o próprio Robert Smith, em parceria com Mike Hedges, se encarregou disso) e arranjado, ele foi um dos primeiros álbuns do que viria a ser chamada de cena post-punk - no mesmo ano, Siouxsie and the Banshees lançou Kaleidoscope, Bauhaus lançou seu 1º LP e o Joy Division se despediu precocemente com a obra-prima Closer. O Cure, em meio a esse contexto mais sombrio do rock inglês, não fez feio. Aliás, considero este como o melhor álbum do Cure, em meio a outras pérolas como Pornography, The Head On The Door, Disintegration e Wish. Agora, o LP, faixa a faixa:

1. A REFLECTION é uma espécie de introdução, vinheta inicial. 2 minutos de um piano melancólico, acompanhado de alguns riffs de guitarra. Serve como um aviso ao ouvinte - "esqueça Boys Don't Cry e conheça o novo The Cure".

2. PLAY FOR TODAY é um rock que resume bem a aura do disco - letra curta, doída e direta, grande destaque para a bateria, um baixo que conduz a melodia e uma guitarra que desenvolve o clima, o ambiente da música.

3. SECRETS talvez seja a mais introspectiva do álbum. O vocal é tão baixo que quase não dá para ouvir, mas seu aspecto sussurrado combina com a faixa, que tem um ritmo bem monolítico.

4. IN YOUR HOUSE é uma das mais belas. A melodia é muito boa, e a voz de Robert reflete bem a instabilidade emocional pela qual ele passava. Nota-se uma certa influência, mesmo que ligeira, do Joy Division, com a bateria entrando antes de todos os outros instrumentos e também sendo a última a sair.

5. THREE usa e abusa do teclado para montar uma sonoridade sombria e até assustadora. Seu fim repentino encerra também o lado A do LP, ou a primeira metade do CD.

6. THE FINAL SOUND é a mais curta (quase 1 minuto de duração) e estranha de todas. Percebe-se que ela prepara terreno, para o maior petardo do disco...

7. A FOREST, clássico absoluto do The Cure e a minha favorita da banda. A letra é fantástica ao relembrar os pesadelos que Robert tinha com "a garota na floresta" (perdão por essa intervenção, mas eu também tinha sonhos assim, e não foi por acaso que eu passei a adorar a música). O arranjo instrumental é muito soturno, e até dançável (aliás, A Forest, ao lado de Love Will Tear Us Apart, inicia a tendência das "canções sentimentais perfeitas para pistas de dança" que predominou nos anos 80, destacando-se New Order e Depeche Mode). A progressão da música também é interessantíssima, encerrando-se com guitarras raivosas e uma forte linha de baixo. Enfim, tudo nela é perfeito.

8. M, eis outra pela qual eu tenho uma predileção especial. Acústica e mais leve que as anteriores, ela também possui notável capacidade de envolver o ouvinte. Destaque para o riff na reta final.

9. AT NIGHT é a mais longa (5 minutos e 55 segundos, apenas um pouco a mais que A Forest) de 17 Seconds. Completamente dequada para uma rotulação do tipo "gótico" ou "dark", já que usa e abusa de "recursos estilísticos" como comparar a noite com o sofrimento do eu-lírico. "Listen to the silence at night... someone has to be there".

10. SEVENTEEN SECONDS, a canção que intitula o trabalho, começa lenta e gradual, com uma bateria tímida, seguida dos outros instrumentos. Ela só começa pra valer depois de 1min15sec de duração, e não decepciona. Sua simplicidade e a idéia do silêncio angustiante que ela passa fecham o álbum de uma maneira ímpar.

Após a audição, só há uma conclusão. Na verdade, duas. A primeira é que esse disco é sensacional. E a outra é que você vai apertar o Repeat para ouví-lo novamente, já que ficou viciado nele...

segunda-feira, setembro 18, 2006

"It's called love, and it belong to us"

Poucos livros tratam o amor de uma forma tão genial e criativa como "Fragmentos de um discurso amoroso". Roland Barthes (1915-1980), crítico literário e autor da obra, escreve de uma maneira clara e envolvente, e pode agradar aos mais diferentes tipos de leitores graças a isso.
"Fragmentos" é uma espécie de dicionário do amor. Barthes comenta sobre vários "verbetes" relacionados ao tema, como a espera, o adorável, a cena, o ciúme, o amor obsceno, entre outros.
O autor utiliza inúmeras referência a livros e escritores para intertextualizar a obra - temos Freud, Flaubert, Baudelaire, Sartre, Platão e até Nietzsche, mas a maior parte do livro alude à indiscutível obra-prima do Romantismo - "Os Sofrimentos do Jovem Werther", afinal, esta descreve praticamente todas as situações amorosas que são relatadas no livro.
O meu capítulo preferido é sobre a identificação:
"O sujeito se identifica dolorosamente a qualquer pessoa (ou qualquer personagem) que ocupe a mesma posição dele na estrutura amorosa. (...) Werther se identifica a todo enamorado perdido, [como] o louco e o empregado. Eu, leitor, posso me identificar com Werther. Historicamente, mil sujeitos o fizeram, sofrendo, se suicidando, se vestindo, se perfumando, escrevendo como se fossem Werther."
Creio que o maior mérito de "Fragmentos de um discurso amoroso" é exatamente o fato de retratar situações pelas quais a esmagadora maioria dos leitores já passou, e entende como são difíceis. Mesmo eu, que no meu "curriculum vitae do amor", só acumulei duas pequenas experiências (sendo que ambas foram malogradas pelo meu excessivo platonismo e o meu ego unilateral), fiquei paralisado ao ler o livro e lembrar fatos que ocorreram a mim entre abril de 99 e novembro de 2000, e entre outubro e novembro do ano passado.
É provável que Barthes quis provar que não é preciso que uma paixão seja concretizada para que o sujeito que está apaixonado experimente todas as angústias e alegrias que o amor proporciona. Mesmo os românticos que não têm na prática o mesmo êxito obtido na idealização (eu, por exemplo) não ficam imunes à confusão emocional e sentimental.
Os realistas, com toda a sua amargura, desprezam os ultra-românticos justamente por isso - enquanto estes são exaltados e sinceros quanto aos seus sentimentos, aqueles escondem o que sentem, e, para isso, tentam se focar no lado mais carnal. O próprio Brás Cubas, o cínico por excelência, pode ser utilizado como exemplo.
Caso você deseje ler um livro que exponha idéias e considerações líricas e intimistas sobre essa "pequena loucura" chamada amor, este escrito de Roland Barthes será o seu próximo livro de cabeceira.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Prosseguindo...

I - Recapitulando o que eu iniciei no post passado, a primeira teoria anfisista propõe a valorização do indivíduo, já que vê nele um ser dotado de intelecto e experiência próprias, que não pode negar a si mesmo. Mesmo que ele busque algo que o oriente e conforte (religião e ideologia política, por exemplo), sugere-se que ele não se resigne, sujeite-se completamente a isso - as opiniões dele podem muito bem se ajustar com tais credos. Em outras palavras, o Anfisismo não acredita que "fulano é de esquerda" ou "sicrano é cristão", mas sim que "fulano tem idéias sócio-econômicas de esquerda" ou "sicrano se identifica com a religião cristã". A mudança do verbo "ser" para "estar", ou possíveis eufemismos, não são por acaso. O importante não é a doutrina, mas sim o indivíduo que a busca.

II - Já a segunda teoria é contra radicalismos. Eu notei que posicionamentos extremistas são maniqueístas e autoritários, e dificultam possíveis discussões com quem tenha opiniões contrárias. Por exemplo, nacionalistas xenófobos e cosmopolitas, ultraliberais e socialistas radicais, ateus e fanáticos religiosos, etc.
O ser humano, portanto, deveria buscar evitar alinhamentos sectários. Em outras palavras, procurar pelo equilíbrio, pela balança. Não é um meio-termo, até porque neutralidade é algo impossível de se obter na minha opinião, mas sim posições moderadas, conciliatórias. Claro que exigir isso do ser humano, em certas situações em que é preciso uma resposta lacônica (sim ou não), seria almejar por uma perfeição inalcançável , mas existem outras nas quais isso é possível. Por exemplo, não é interessante dizer "eu odeio profundamente o Lula" ou "eu amo o Lula, mexeu com ele, mexeu comigo", mas sim "o governo Lula tem seus pontos negativos e positivos, e podemos muito bem debater quais são eles".

III - Outro ponto a ser discutido é o eterno dilema entre teoria e prática. Em quase todas as situações pelas quais passamos, sempre há alternativas mais sonhadoras e idealistas, e aquelas que buscam o pragmático, o funcional. Infelizmente, nenhuma das duas funciona plenamente. Ser muito teórico torna o processo mais lento, mas a excessiva praticidade ignora a necessidade de renovação, de criatividade.
O que eu vejo como possibilidade é analisar cuidadosamente cada atitude, sempre que possível. "Ok, dessa maneira as coisas seriam como eu gostaria, e daquele jeito a chance de êxito seria maior. Então, vejo como necessário fazer concessões tanto para um lado quanto o outro". Sonho e realidade podem caminhar juntos, e vários exemplos na História da humanidade provam que nem sempre precisamos ser um Bola-de-Neve (Trótski) ou um Napoleão (Stálin).

IV - Agora, algo a respeito do pessimismo e do otimismo. Ambos parecem ser inconciliáveis, mas, inconscientemente, unimo-los. É muito difícil que alguém sempre veja o mundo de maneira muito negativa, assim como é estranho se deparar com alguém que nunca tem suas esperanças abaladas. Há uma pontinha de decepção e confiança em tudo.
A partir disso, o anfisismo deseja explicitar esse relação. "Me sinto impotente perante a esse mundo tão cruel, mas farei tudo que esteja a meu alcance para diminuir minha infelicidade". Dá até para se basear em caras como Nietzsche, Schopenhauer, Dostoiévski e Freud, que viam o mundo de uma maneira realista e até pessimista, mas nem por isso negavam a seus anseios e desejos, cada um à sua maneira, com seus respectivos estilos e pensamentos.

V - E, para finalizar por hoje, o substantivo abstrato mais polêmico, avassalador e poderoso - o amor. Eu, ao sistematizar as teses anfisistas, coloco o amor como a energia que move esse mundo, pois nele próprio já estão envolvidas outras poderíssimas, como o metafísico (ou mesmo o inconsciente) e o sexo.
Nada traz mais alegria e sofrimento, prazer e dor, satisfação e desespero, ao mesmo tempo, que o amor (eis um exemplo de como funciona a teoria IV). Ele é capaz de abalar até o mais forte dos homens ou a mais valente das mulheres. Nada é mais intenso, profundo e complexo do que ele, afinal, nossos sentidos, percepções e até a razão são consideravelmente abalados por uma possível paixão.
Mesmo com todas as facilidades para direcionar a libido para outras atividades no mundo moderno (internet e games, por exemplo), eu considero praticamente impossível que a pessoa nunca se sinta incompleta e solitária por dentro. Nem o mais bem-sucedido epicurismo ou o mais sisudo cético conseguem, ao meu ver, fazer a mente evitar mínimos pensamentos, como "Será que um dia eu encontrarei a pessoa com a qual eu sentirei confortado (a) e feliz? Será que eu ainda encontrarei alguém por quem terei um grande afeto e confiança?"
Eu já cheguei a acreditar que o amor era para os fracos. Na pior das hipóteses, eu mesmo estaria me considerando um deles. Na melhor, estaria admitindo que é impossível existir alguém que seja forte nesse mundo... portanto, faço a auto-crítica e digo algo que pode soar aforístico, mas é a minha opinião no momento - é inviável tentar resumir o amor em poucas palavras.

terça-feira, setembro 12, 2006

Eis o Anfisismo

Ah, dúvidas, por que vocês têm que povoar e enlouquecer a minha tão reduzida mente?
Passei boa parte do dia de hoje ocupado com dilemas filosóficos, e resolvi escrever este post.
Estou entre duas correntes, entre duas tendências - a realista e a romântica. Um lado de mim quer ser pessimista, pragmático e cínico; o outro quer ser libertário, idealista e sonhador.
A partir de situações mínimas eu inicio devaneios bizarros. Lendo um artigo do Arnaldo Jabor sobre o desencanto e a fúria dele com a esquerda, dando uma folheada na Folha de S. Paulo falando sobre uma pesquisa que indicou que o brasileiro se considera feliz, lendo o Fragmentos de um Discurso Amoroso do Barthes, ouvindo Nirvana, ouvindo Slowdive, assistindo a um filme no qual o cara cita Werther e questiona uma possível "decadência social, política, moral e cultural do Ocidente" (provavelmente, o filme é francês. Eles que adoram esses papos existencialistas), ouvindo de todo mundo (tanto na escola, quanto no cursinho de inglês e em casa), há 3 semanas, que meu cabelo precisa ser cortado, que eu fiquei estranho, que eles não gostaram...
Enfim, são coisas aparentemente tolas. E são mesmo. O problema é que eu me preocupo até com tolices. Uma banalidade pode ser motivo de uma confusão mental intensa, para mim. E nem precisa ser uma epifania.
Eu resolvi, portanto, tentar minimizar esses dilemas. Criarei minha própria filosofia. Sistematizarei minhas idéias. O projeto do Kaionismo se concretizará.
Criei há poucos minutos atrás o nome: Anfisismo.

Anfi é um prefixo grego que indica "duplicidade, o que vem de dois lados" - indica o caráter dividido das minhas idéias, entre a razão e a emoção.
S foi um mero conectivo.
Ismo vem de "partidário de", "defensor de", "trabalha com".

Como anfisista, poderei me utilizar de pontos de vista que não visarão a serem absolutos. Em outras palavras, adotar-se-á reflexões que busquem paralelos, conexões entre os sentidos e o raciocínio. Ligar o perfeito com o imperfeito, a experiência e a idéia.
Não é dualismo, pois não separa, mas sim une. Não é (necessariamente) contraditório, pois trabalha com duas visões opostas e tenta mesclá-las, até achar um ponto de equilíbrio.
É pessimista, pois vê dor, o sofrimento de viver. É otimista, já que espera encontrar algo que seja útil, agradável e prazeroso. Também é racional, pois organiza metodicamente as idéias em busca daquela que seja mais adequada. Assim como é emocional, porque valoriza o que se passa pelo coração, pelos sentidos.
O Anfisismo não quer se resumir a um único seguidor, mas, ao mesmo tempo, espera evitar que sua filosofia não seja distorcida por aqueles que são ou sectários, ou desinteressados.
E, acima de tudo, há algo que eu, como fundador do Anfisismo, coloco como uma opinião pessoal, mas que pode valer como uma das primeiras teorias - a valorização do indivíduo. É preferível ser um egoísta do que negar a si mesmo por uma "causa maior". Cabe à filosofia, à posição político-partidária ou mesmo à religião apenas orientar e confortar, e não resignar, submeter a algo.

Aguardem por mais.

domingo, setembro 10, 2006

Estas flores malditas

Terminei As Flores do Mal, enfim. Aproveitei o tédio que tomou conta de minha alma na noite e madrugada de ontem e aproveitei para encerrar a leitura desta grande obra do Baudelaire.
Aproveitei para escrever um poema, que você pôde conferir no post passado (ou não. Provável que não, já que você não deve ser do tipo de pessoa que lê meu blog, certo? Que bom, sua saúde mental foi preservada!). Ele não é "baudelairiano", porque eu não usei a linguagem típica do simbolismo - apenas o tema do poema é dúbio. Na verdade, tal temática não foi premeditada - só descobri tal "sentido" quando estava revisando-o para publicá-lo no blog.
Enfim... algumas considerações sobre o livro.
- Spleen e ideal: a melhor parte, na minha opinião. Os poemas mais marcantes de Baudelaire estão aqui, como o meu favorito, "A serpente que dança":

Que eu amo ver, indolente amante,
Do corpo que excele,
Como um tecido vacilante,
Transluzir a pele!

Sobre o teu cabelo profundo
De acre perfumado,
Mar odorante e vagabundo,
De moreno azulado,

Como um navio que desponta,
Ao vento matutino
Sonhadora, minha alma se apronta,
Para um céu sem destino.

Teus olhos, que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.

Ao ver teu corpo que balança,
Bela de exaustão,
Dir-se-ia serpente que dança
No alto de um bastão.

Todos os ócios com certeza
Tua fronte movem
Que passeia com a moleza
De elefante jovem,

E o teu corpo se alonga e pende
Qual navio soberano,
Que as margens deixa e após estende
Suas vergas no oceano.

Onde crescida da fusão
De gelos frementes
Se a água da tua boca então
Aflora em teus dentes,

Bebo um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que difunde
Estrelas em minha alma!

- Quadros parisienses: reúne os poemas que eu menos apreciei. Não sei se foi por causa da linguagem, metalinguagem ou da minha paciência, mas não me interessei muito por eles.
- O vinho: a bebida, a bebida... Baudelaire vê cura e abismo, alegria e tristeza, bem e mal reunidos em um mesmo líquido alcóolico. Eu, como pessoa sóbria, talvez não possa entender como Charles os prazeres (ou dores) do vinho, mas pelo menos considerei a poesia boa.
- Flores do mal: não intitula o livro por acaso. Essa é ideal para ser recitada.
- Revolta: caramba, quantos versos agressivos e, digamos, profanos... a metáfora sobre Abel e Caim ficou genial.
- A morte: um dos pontos centrais da poesia romântica e simbolista do século 19 é destrinchada de maneira brilhante, principalmente em "A morte dos amantes" e "A viagem".

sábado, setembro 09, 2006

Contemplação

Há tempos que eu não escrevia um poema. Espero que gostem deste.

CONTEMPLAÇÃO

Soturna como a noite
Ela vaga pelas ruas
Um pedido de açoite
Na contemplação das luas.

Sua boca é carnuda
E o sorriso, infernal
Quando suas curvas ela desnuda
A instigação é fatal.

Uma beleza sombria
Aterroriza a quem passar
E, na madrugada fria,
Ela deseja jamais descansar.

Quando lhe oferecem flores
A criatura logo repele
Não quer nelas relembrar dores
Que afaguem sua pele.

Calculista e minuciosa
Logo ela encontra uma vítima
Na sua função não é misericordiosa
Pois sua fraqueza é ínfima.

É hora de partir
O trabalho está feito
Quem sabe poderá sorrir
Por mais um ato perfeito.

sexta-feira, setembro 08, 2006

A cura para todos os males

Já afirmei diversas vezes que The Cure é muito bom, mas não me canso de repetir. Ouvir o Disintegration seguido do Seventeen Seconds é uma experiência musical-psicológica impressionante. Mais (ou tão) viajante que (quanto) isso, só se for pra ouvir a fase psicodélica dos Beatles, a "trilogia" do Radiohead, o Loveless do MBV ou mesmo o Unknown Pleasures e o Closer do JD seguidos.
Enfim, eu gosto de música atmosférica. Canções que ambientam o ouvinte. Eu me sinto bem em ouvir algo que me envolva. Com a literatura é a mesma coisa - não foi por acaso que eu gostei tanto de, por exemplo, 1984, On The Road e Os Irmãos Karamazov...

terça-feira, setembro 05, 2006

A serpente que dança

A) O título do tópico faz referência a um dos melhores poemas de "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire. Comecei a ler o livro pra valer hoje, e não me arrependi - a obra é muito boa, e é uma síntese da efervescência literária da França do século XIX. Baudelaire mistura ultra-romantismo com gótico e foi grande influência para o simbolismo. Espero que eu consiga lê-lo até o final sem me enjoar.

B) Hoje, após dois turnos dormindo (23h30-3h20 e 4h30-5h20), acordei, e tive uma grande alegria - eu estava com olheiras! Finalmente! O esforço de uma semana deu certo! Do nada, no banheiro, me arrumando para a escola, eu tive uma idéia. "Que tal se eu passasse um lápis preto nos meus olhos, mas bem discretamente, pra que parecesse uma olheira mais intensa?" E resolvi levar isso adianta. Adorei, ficou muito bacana, meus olhos ficaram mais expressivos. Além disso, eu "dissipei" tão bem o lápis na olheira que só duas pessoas perceberam - um colega meu, que ainda assim ficou na dúvida e, claro, a minha mãe, que a cada dia me acha mais 'esquisito'. Tadinha, às vezes eu tenho pena dela por ter concebido um filho tão excêntrico. Ainda que meu irmão do meio é 'normal' e compensa eu, a "ovelha negra" - até porque meu irmão caçula é meu discípulo, e fica facilmente irritado quando alguém o impede de ver CDZ ou ouvir Pixies.

C) Seria eu um capitalista judeu mirim? Minha mãe me deu 8 reais para almoçar, e eu consegui fazer o dinheiro render em uma pizza de calabresa e uma Pepsi de lata. Eis "a ética kaionista e o espírito do Kapitalismo"!

D) Provas. Fui bem na de Texto (o professor colocou um artigo do Mainardi, aquele sobre ele ser o Coiote e o Lula ser o Papa-léguas. Ótima escolha), Gramática, Literatura (fiquei decepcionado com o professor, que esqueceu de colocar prosa gótica e aumentou o número de questões sobre a chatice do romance regionalista) e Fisiologia. Na de Zoologia, meu desempenho deve ter sido razoável ou mediano, mas na de Botânica... pof! Um desastre. Sou péssimo para decorar nome de estruturas vegetais.

domingo, setembro 03, 2006

5 Bandas que eu ouvi bastante hoje, e pensamentos da minha mente

1. Garbage - "Stupid Girl" foi a música que me despertou grande interesse nessa banda. Já a conhecia (a música e a banda) há uns 7 meses, quando também ouvi pela primeira vez as boas "Only Happy When It Rains", "Cherry Lips" e "I Think I'm Paranoid". Mas só foi nessa semana que eu fui conquistado pela melodia dessa canção. E hoje tirei o dia para baixar as melhores do Garbage. Foram 4 ou 5 de cada álbum - gostei da grande maioria delas. Destaco "Vow", "Push", "Special", "Til The Day I Die", "Breaking Up The Girl", "Bad Boyfriend" e "Sex Is Not The Enemy". Indie/electro/glam rock dos bons.
2. Titãs - estou desconfiado de que Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas é meu disco favorito deles... e com bons motivos. "Comida", "Corações e Mentes", "Diversão" (a melhor faixa do álbum e também da banda, na minha opinião), "Desordem", "Lugar Nenhum" e "Nome Aos Bois" são algumas das melhores.
3. Slowdive - a música deles é tudo que um doido como eu poderia querer nesse mundo - atmosférica, densa, melancólica, viajante... é um grande prazer dar esses adjetivos para "When The Sun Hits" (minha predileta), "Alison", "Slowdive, "Crazy For You", "Dagger", "Machine Gun", o cover de "Some Velvet Morning"...
4. David Bowie - o Low, sem dúvidas, é um disco fenomenal. Ao lado de Velvet Underground And Nico (The Velvet Underground), The Idiot (Iggy Pop) e Closer (Joy Division), ele forma o que o post-punk considera "Os 4 [discos] Intimistas".
5. The Velvet Underground - falando neles, também escutei bastante o som deles hoje. Ouvi o VU and Nico na íntegra, além de músicas avulsas dos outros discos, como "Who Loves The Sun" e "I Can't Stand It".
Ah, também freqüentaram os meus ouvidos hoje: Mutantes, Pixies, Legião Urbana, I Love You But I've Chosen Darkness, VNV Nation, Joy Division e The Cure.


Depois que eu virei um zumbi e passei a dormir 4 horas diárias, concluí mais uma das transformações trazidas pela minha nova tendência comportamental. Mesmo assim, ainda falta muita coisa, pois...
1. Não estudei nada para a prova de Matemática, e vou ir mal nela. Minha mãe está doidinha para me ver queimar a língua com esse discurso de que eu voltei a ser estudioso...
2. Ainda continuo meio intranqüilo quanto a algumas pessoas e situações, mas já me controlo melhor do que antes. Levo provacações na esportiva, sem apelar; falo (um pouco) menos; descarrego meu mau humor e perversão não nas pessoas, mas sim no The Sims 2 (nossa, joguei esse grande game o dia inteiro... é muito viciante e ideal para manipuladores e lunáticos como eu).
3. Continuo enxergando a política sob um ponto de vista realista e pragmático, mas deixei de ser intolerante com a esquerda. Hoje, por exemplo, assistindo a um filme sobre os anos sessenta, até dei um sorriso quando vi a representação das convenções do Partido Democrata, a utopia revolucionária dos jovens e a luta pelos direitos universais e pela igualdade. Quase um dejà vú do Kaio de "antes"...
4. Em uma coisa eu nunca mudo - escrever em tópicos numerados. Faço isso desde que comecei a gostar de videogames.
5. Já que não consigo dissipar o caráter paranóico que minha personalidade tende a adquirir em certos momentos, resolvi focá-la para outras áreas. Passei a me obcecar pela idéia de conseguir provar que o individualismo triunfa sobre o determinismo. Quero conseguir ter um comportamento anti-social em um meio essencialmente sociável (a escola). Será que eu consigo?

quinta-feira, agosto 31, 2006

Play for Today

Comprei! Comprei! Comprei (anteontem) o CD do Staring At The Sea, do The Cure!
Desejava há tempos esta compilação dos singles feitos entre 1979 e 1985 por essa grande banda de rock alternativo britânico.
Ainda compro CDs originais de bandas das quais eu realmente goste. Com Cure não poderia ser diferente, ainda mais porque esse álbum abrange canções das tendências musicais mais distintas deles: o punk existencialista (Killing An Arab), canções inocentes sobre fracassos amorosos (10:15 Saturday Night, Boys Don't Cry), a ambientação soturna (A Forest, Play For Today), a melancolia da fase gótica (Charlotte Sometimes, The Hanging Garden), um período serelepe e 'quase gay' (The Walk, The Lovecats) e o início da guinada para o pop alternativo (In Between Days, Close To Me).
Robert Smith foi uma das mentes mais criativas do rock nos anos 80. O The Cure, liderado por ele, compôs, ao lado do Joy Division e de The Smiths, a "santíssima trindade do post-punk" (desculpe para quem gosta de Siouxsie, Bauhaus, Echo and the Bunnymen, Gang of Four, etc, mas as três que eu citei são as mais aclamadas, influentes e importantes). Até hoje a influência da banda permanece explícita, tanto entre indies quanto entre góticos (duas tribos musicais que, em comum, têm o amor ao Cure).
E, para encerrar, um trecho da paranóia sombria de A Forest - "Suddenly I stop, but I know it's too late... I'm lost in a forest, all alone... The girl was never there, it's always the same. I'm running towards nothing, again and again and again..."

terça-feira, agosto 29, 2006

Dead Souls

Lembram daquela semana que eu dormi pouquíssimas horas diárias? Se não, bem, é mais ou menos o seguinte - eu queria testar os limites do meu corpo e mente.
Resolvi voltar com essa idéia antes de ontem, após falar sobre ela com uma amiga pelo MSN. Entre domingo e segunda, dormi entre das 2h30 às 5h30. De ontem para hoje, meu descanso foi das 1h15 às 5h15. Algumas notas a respeito disso:
I - Estou mais elétrico. É legal a sensação, me sinto mais poderoso - e maluco.
II - Estou tentando, sobriamente, sentir um pouco do que doidos varridos/libertinos/ébrios/beatniks/marginais sentem - a liberdade, a espontaneidade, um novo jeito de viver.
III - A cafeína é a droga que me move. Café, capuccino, Coca-Cola, chocolate... tudo vale para me manter acordado.
IV - O mais legal de tudo são os "desmaios" - a qualquer hora do dia, do nada, eu apago. É sério. Hoje, ocorreram quatro - um na aula de Química (foi o mais 'tranqüilo' e rápido), dois na aula de Matemática (nesses eu me assustei - acordava do nada completamente fora de órbita, e com o olho esbugalhado) e o último na aula do cursinho de Inglês (o professor notou, mas também, nesse, ao contrário dos outros, realmente parecia ter 'entrado em coma'). Pretendo ter mais desmaios amanhã, e descrevê-los-ei no blog se forem mais psicodélicos que os de hoje, hohohoho...

domingo, agosto 27, 2006

"É preciso ser absolutamente moderno"

Ou "Como o desgraçado do Rimbaud salvou meu dia".

Hoje eu tive prova do ENEM. Cheguei na sala na qual a faria por volta de 45 minutos antes do exame. Estava meio desanimado. "Será que eu estou preparado, ou estudei bem menos do que deveria?"
Por precaução, trouxe um livro para ler antes da prova. O escolhido foi "Uma Estadia No Inferno", de Rimbaud, que ainda vinha com alguns poemas escolhidos. Comprei tal obra na sexta-feira passada, pois estava curioso para começar a ler Rimbaud. E não me arrependi.
Caramba, ele escreve muito bem. Metáforas não faltaram em sua prosa e poesia - temas como sexo, drogas, loucuras, delírios e, acima de tudo, uma alma libertária não faltaram. Entendi o porquê de tanta adoração ao Simbolismo. Minha mão até tremia nas páginas finais do livro, de tanta empolgação e envolvimento. Me senti renovado e tranqüilo para a prova.
E ela foi fácil e boa de fazer. Envolvia muita interpretação de texto, que é meu forte. Creio que vou obter mais de 70% de aproveitamento. A redação tinha um tema legal ("O poder de transformação da leitura"), e eu a fiz sem dificuldades. Levei um susto minutos depois que terminei a prova e já tinha saído - eu não tinha colocado o título (até porque não havia nenhuma indicação no exame). Meu desespero se dissipou quando um amigo meu que também fez o ENEM me disse que o CESPE e o CESGRANRIO, que elaboraram a prova, não cobram título na redação - o tema já funciona como o mesmo.
Enfim, um dia que tinha tudo para dar errado acabou dando certo. Que bom.

Edit: São 22h05 de 27/08, e eu acabei de gabaritar a minha prova. Acertei 49 das 63 questões, tive 78% de aproveitamento...

sexta-feira, agosto 25, 2006

Good times for a change...

A mudança na fonte não é por acaso. Os 12 dias sem atualizar, também não.
Cansado da melancolia dos últimos 12 meses, provavelmente o período mais intenso e, ao mesmo tempo, tedioso de minha vida, peguei por acaso um livro de Química na quinta-feira passada (16) e tentei estudar. 30 minutos depois, me dei conta de que eu estava vidrado e maravilhado com o fato de que a matéria que eu estava estudando era legal. Sim - eu voltei a gostar de estudar!
Minha mãe disse que é muita arrogância da minha parte dizer, no meio do ano, que estou farto de dar o pior de mim na escola e, agora, retornaria ao Kaio que eu era. Creio que ela não esteja completamente errada, mas é verdade o fato de eu ter recuperado algumas características do meu "velho eu", que existiu (!) entre Setembro de 2003 e Agosto de 2005, como, por exemplo:
- Interesse pelos estudos, principalmente em relação a ler a parte teórica dos conteúdos;
- Otimismo quanto à vida, sem medo de admitir que eu estou tranqüilo e sem problemas sérios;
- Politizado, com uma interpretação pessoal das ideologias, mesmo que pendendo para um certo idealismo;
- Fissurado em Beatles, com suas canções vibrantes, melódicas, alegres e geniais.
- Sem nenhuma inspiração para poemas (é verdade, felicidade e poesia, na minha opinião, são coisas que não combinam);
- Auto-desprezo e paranóia são coisas descartáveis para a minha vida, chego a considerar tolice ter valorizado-os tanto como eu os valorizei nos últimos tempos.

Enfim, eu saí dos "anos pessimistas" e estou na transição entre os "anos idealistas" e os "anos redentores" - sim, uma regressão progressiva, ou uma progressão regressiva, seja lá o que esse trocadilho queira dizer. Em outras palavras, entre Ago/05 e Ago/06, eu estive em uma fase de desconstrução - um Kaio mais cético, irritável, solitário, sensível, recluso, insensato. Eu não fiquei obcecado por bandas soturnas como Joy Division, The Cure e Muse e escritores pessimistas como Schopenhauer, Nietzsche e Orwell por acaso - eles refletiram o que eu sentia naquela época.
Não sou do tipo de pessoa que muda. Eu diria que tenho tendências comportamentais oscilantes. Por exemplo, em uma determinada época de minha vida, minha personalidade tendia a ser x, meus interesses eram y, minhas aspirações eram z. E eu estou voltando a ser o Kaio que eu era antes, com apenas duas ressalvas.
1. Não mais ateu - "livre pensador" talvez seja melhor para definir minhas posições em relação a Deus e religião.
2. Não pretendo resgatar minhas idéias de esquerda, até porque elas não soam mais verossímeis para mim, e as que eu ainda conservo, na verdade, tendiam mais para o liberalismo, como o imposto único e a livre concorrência, que eu defendia mesmo quando era de esquerda.

domingo, agosto 13, 2006

Darks, mas não clichês

Quando eu menos esperava, a raça dos indies me presenteou com uma banda que presta. Ainda bem, já estava cansado daquelas centenas de bandas parecidas entre si.
Estou falando de I Love You But I've Chosen Darkness. O nome (muito bizarro e bacana, por sinal) já indica as intenções deles - canções darks e soturnas. E felizmente, isso não significa "outra bandinha indie que copia The Cure Joy Division, Depeche Mode, etc". Pelo contrário. O Chosen Darkness conseguiu fazer um disco sombrio, mas com várias sacadas interessantes, atmosferas que não caem no lugar-comum. As prováveis influências deles são justamente o B-side do rock inglês dos anos 80 e início dos 90, principalmente o shoegaze. Mesmo assim, eles o fazem sem que isso soe como cópia gratuita.
A primeira faixa, "The Ghost", abre magistralmente o disco (a minha preferida, por enquanto). Em seguida, dois petardos que conciliam acessibilidade com experimentalismo - "According To Plan" e "Lights". Já "Today" e "We Choose Faces" se completam. "Last Ride Together" mantém o bom nível, e a tristeza aumenta com "At Last Is All" e "Long Walk". "Dash" é mais ou menos o que quero fazer no futuro com o Sofisma Burlesco. "Fear Is On Our Side" parece música ambiente, e a faixa final é a louca e grudenta "If It Was Me".
O I Love You But I've Chosen Darkness não é uma banda expecional, que vai mudar o rock, etc, mas fez um disco de estréia competente, e, comparado a "When You Go Out", principal música do EP deles, de 2003 e produzido pelo Spoon, é notável o jeito como eles se desgarraram de rótulos fáceis, como o famigerado indie-nostálgico. Eles provaram que é possível, sim, um som sombrio com personalidade e sem apelar para o joy-divisioniano, o the-cureano ou o depeche-modeano.

segunda-feira, agosto 07, 2006

One Hundred Years...

Pelo visto, entrei definitivamente na pior etapa da vida do ser humano - os anos pessimistas.
Não gosto da divisão tradicional criança / adolescente / adulto / idoso, considero-a mais biológica que psicológica. O Kaionismo (sim, sempre ele) propõe a seguinte classificação:
- Os Anos Instintivos: geralmente dos 0 aos 3 anos, o nome já diz tudo - predominam os instintos animais e a falsa ingenuidade.
- Os Anos Inocentes: toda aquela carga sexual da fase anterior vai se diluindo com o passar do tempo, e os seres humanos passam a desenvolver gradualmente a sua racionalidade e suas noções de mundo.
- Os Anos Curiosos: provavelmente, a época mais feliz de nossas vidas. Ficamos mais sociáveis, o sexo oposto começa a nos despertar uma maior atração (mesmo que seja esta só para amizade), formamos grande parte de nossa personalidade, etc. No meu caso, essa fase acabou aos 10 anos, graças à minha desilusão amorosa, mas a média é até os 11 ou 12.
- Os Anos Incríveis: não me apropriei do nome daquele (ótimo) seriado por acaso. Até os 14, 15 anos, passamos por situações que irão terminar de compor o nosso psíquico. A sexualidade volta a aflorar, há uma certa tendência em buscar tribos e rótulos.
- Os Anos Idealistas: os jovens que tanto anseiam por mudar o mundo, seja pela música, pela política ou mesmo pelo seu jeito de se vestir, estão nessa etapa. Sonhos, esperanças e projetos são constantes por aqui. A minha foi de setembro/03 até novembro/05, com alguns poucos resquícios até abril desse ano. Nesse período, voltei minhas atenções para o Rock, uma literatura mais profunda e o nefasto "socialismo democrático e humanista". Argh.
- Os Anos Pessimistas: "the dream is over". Quando os hippies viraram yuppies, os revolucionários tornaram-se reacionários ou mesmo no momento em que o punk deu uma guinada para o gótico, a desesperança entra em cena. O pessimismo não tem hora para chegar, mas ele atacará quando todos os sonhos juvenis do indivíduo estiverem falidos. No meu caso, ele veio um pouco mais cedo devido a: 1. Descrença crescente quanto à política; 2. A falta de perspectivas quanto ao meu futuro; 3. Solidão e ceticismo quanto ao amor. Eu poderia ser mais esperto e escolher alternativas mais fáceis, como "me vender" ao way of life do capitalsimo, me "filiar" a alguma tribo urbana ou mesmo ser um playboy fútil. Infelizmente, preferi ser um egoísta contraditório e paranóico, viciado em problemas imaginários e inexistentes. Meu destino?
- Os Anos Indefiníveis: Eis meu futuro. Descrição em aberto.
- Os Anos Redentores: se eu escolhesse a tal "alternativa fácil", poderia virar um adulto bem-sucedido. Talvez teria grande sucesso financeiro, ou seria um membro contente da classe média, ou mesmo seria feliz com pouco ou quase nada. Aliás, essa etapa da vida é duradoura, e acabará quando a sua vida for arruinada pelo divórcio, filhos problemáticos, dívidas sem fim e desemprego (ou emprego tedioso).
- Os Anos Decadentes: após o fracasso, você irá para essa etapa, estando senil ou não. Parabéns, você está no fundo do poço.
- Os Anos Tranqüilos: agora, se você for uma pessoa iluminada [risos], e manter uma certa estabilidade nos Anos Redentores, desfrutará, obviamente, de uma velhice confortável. Sortudo (a)...

domingo, julho 23, 2006

Poema do dia - Voluntariamente

Cansada, a minha mente
Quer repousar eternamente
Eis um réquiem da hipocrisia
Para celebrar a vida vazia

Situação insustentável
Decisão irrevogável
Para aqueles que excluem
Achando que incluem

Noites sem dormir
Palavras a repetir
Não chega a ser grave
Mas não deixa de ser um entrave

Sociabilização é complicado
Sempre algo dá errado
Tentativas em vão
De sair da isolação

Todos agem igual
Como se fosse regra proporcional
Risadas tão deploráveis
E conselhos tão ignoráveis

O solitário é sempre o vilão
Segundo os outros, sem emoção
Embora prefira se enclausurar
Que aos amigos enganar

Só... sozinho... sem destino
Caminho... perdido... para sempre
Só... sozinho... sem destino
Caminho... perdido... para sempre

Pouco resta a falar
Sequer uma negligência salutar
Eremita, mas voluntário
Antes isso que um otário

sábado, julho 22, 2006

Antes de mais nada...

Come closer and see
See into the trees
Find the girl
If you can

Come closer and see
See into the dark
Just follow your eyes
Just follow your eyes...

I hear her voice
Calling my name
The sound is deep
In the dark

I hear her voice
And start to run

Into the trees
Into the trees...
Into the trees!

Suddenly I stop
But I know it's too late
I'm lost in a forest
All alone

The girl was never there
It's always the same
I'm running towards nothing
Again and again and again and again...

The Cure - A Forest